quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Gabi e Malafaia: dois extremos de uma questão


A entrevista do pastor evangélico Silas Malafaia no programa De Frente com Gabi deu o que falar. O sucesso foi tanto (na TV e nas redes sociais) que o SBT já pensa em repetir a dose. O “gancho” do programa foi a informação dada pela revista Forbes em matéria na qual se afirma que Malafaia seria dono de uma fortuna avaliada em 300 milhões de reais, o que faria dele um dos pastores evangélicos mais ricos do Brasil. Malafaia se esforçou para provar que seu patrimônio não passa de quatro milhões. Mas o tema que mais despertou polêmica – e a indignação da jornalista Marília Gabriela – foi o casamento de homossexuais e a adoção de crianças por “casais” gays. Dali para diante, a entrevista “esquentou” e assumiu tom de bate-boca.
Malafaia, que, além de pastor da Igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo também é psicólogo, a certa altura afirmou que ninguém nasce homossexual, sendo a homossexualidade um comportamento adquirido. Bastou para que outro personagem oportunista entrasse em cena e embarcasse no vácuo gerado pela entrevista explosiva: o biólogo Eli Vieira mais do que depressa postou um vídeo em seu canal no YouTube tentando refutar as ideias do pastor psicólogo. Eli é figura conhecida na internet por debater com criacionistas e ofender religiosos (já fui alvo de seus ataques e desrespeito, como nesta postagem em que ele usa indevidamente minha foto).
Do alto de sua autoridade como doutorando em genética evolutiva molecular na Universidade de Cambridge, no Reino Unido, Eli afirma: “Posso garantir, com base em literatura farta, que, sim, existe uma contribuição dos genes na manifestação da orientação sexual. Isso não é passível de ser negado mais, já se acumulam muitos estudos [sobre essa relação].” Ele diz mais: “A genética está dizendo que quando um gêmeo é homossexual o outro também é, e a chance aumenta conforme aumenta o parentesco entre eles, isto é, a similaridade genética entre eles. Então como a genética não tem nada a ver com a orientação sexual, Malafaia?”
O pastor Malafaia também não perdeu tempo e respondeu: “Toda a argumentação que [Eli] apresenta é apenas suposição científica, sem prova real, e tremendamente questionada pela própria Genética. É igual à teoria da evolução, uma argumentação científica que não pode ser provada. Não existe ordem cromossômica homossexual, só de macho e fêmea. Então, pseudodoutor, não existe uma prova científica de que alguém nasce homossexual, apenas conjecturas."

Malafaia prossegue: “Dados de pesquisas americanas: 86% dos homens homossexuais já se apaixonaram ou tiveram relação com mulheres; 66% das mulheres homossexuais já se apaixonaram ou tiveram relações com homens. Como alguém nasce homossexual se já teve relação heterossexual? Isso é uma piada!
“46% dos homens homossexuais já sofreram abuso por homens. A pesquisa é mais estarrecedora ao mostrar que 68% dos homens homossexuais só se identificaram com o homossexualismo após o abuso.
“Se o rapaz metido a doutor em Genética quiser saber mais, leia o livro Nascido Gay?, do Dr. John S. H. Tay, que tem mestrado em Pediatria e dois doutorados: um em Genética e outro em Filosofia, e analisou 20 anos de pesquisas sobre o assunto.
“Mais uma para o pseudodoutor sobre os gêmeos monozigóticos, que são idênticos geneticamente: 35% desse tipo de gêmeo que é homossexual, o seu irmão gêmeo é heterossexual. Logo, conclui-se que geneticamente não se nasce homossexual, e o fator externo, do ambiente, é fundamental para determinar isso. Preferência aprendida ou imposta. Ou todos teriam de ser homossexuais ou todos teriam de ser heterossexuais no caso de gêmeos monozigóticos.”
Autoridade reconhecida no campo da Genética, a Dra. Mayana Zatz, em sua coluna no site da revista Veja, deixa claro que a suposta origem genética da homossexualidade não pode ser demonstrada cientificamente, como o estudante Eli tenta fazer parecer. Ela diz: “Embora em minha opinião exista uma predisposição genética para um comportamento homossexual, pesquisas científicas que provem isso na prática são muito difíceis de serem realizadas [então, Eli, cadê a literatura farta?]. Pesquisas genéticas são difíceis de serem realizadas com seres humanos porque não há como analisar comportamentos de pessoas sem levar em conta o ambiente em que vivem ou foram criados. Além disso, o fato de pessoas com comportamento homossexual não procriarem dificulta a definição de um padrão de transmissão genética entre gerações. Estudos de gêmeos idênticos que foram separados ao nascer e criados por famílias diferentes poderiam potencialmente trazer informações importantes. Por exemplo, se a concordância (preferência sexual) entre eles for igual à de gêmeos criados juntos, isso apontaria para uma predisposição genética. Entretanto, estudos como esses são difíceis de serem realizados na prática porque requerem amostras muito grandes para terem uma comprovação estatisticamente significante. [...] Reitero que, ainda que eu pessoalmente acredite que possa haver uma influência genética para a homossexualidade, ainda não existe uma comprovação científica.”

(Se você quiser saber mais sobre isso, leia também este artigo.) 

Para o Dr. Marcos Eberlin, da Unicamp, de certa forma ambos, Silas Malafaia e Eli Vieira, estão errados. “O Silas, porque disse que a homossexualidade não é hereditária, e o tal ‘geneticista-mirim’, porque disse que sim, é. A verdade é que ninguém sabe. Não há como se ter certeza. Há variáveis demais e amostragem de menos”, diz o cientista.
Os cristãos entendem que o ser humano tem uma tripla natureza – física, mental e espiritual. Referir-se ao ser humano como uma criatura apenas comportamental ou genética é um reducionismo exagerado. Tudo deve ser levado em conta e, assim, mais variáveis são adicionadas.
Comentando a opinião da Dra. Mayana, Eberlin diz: “Ela acha, com base em seu viés naturalista, que é [a homossexualidade é um “assunto”] do corpo; eu acho com base no meu viés que é essencialmente da alma; mas a Ciência não comporta ‘achismos’, e aqui, incapaz, se cala.”
Michelson Borges
 
Gabi e Malafaia: dois extremos de uma questão

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